sábado, 27 de fevereiro de 2010

"Eu gosto do impossível, tenho medo do provável, dou risada do ridículo e choro porque tenho vontade, mas nem sempre tenho motivo. Tenho um sorriso confiante que às vezes não demonstra o tanto de insegurança por trás dele. Sou inconstante e talvez imprevisível. Não gosto de rotina. Eu amo de verdade aqueles pra quem eu digo isso, e me irrito de forma inexplicável quando não botam fé nas minhas palavras. Nem sempre coloco em prática aquilo que eu julgo certo. São poucas as pessoas pra quem eu me explico ."
-Bob Marley-

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A solidão - Adriana Lisboa

"Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite." Clarice Lispector escreveu isso. Lendo essas palavras, o mais impressionante, porém, não é a idéia de que minha força possa estar na solidão, e sim que eu tenha me acostumado a procurar minha força em toda parte, exceto na solidão.
Saia de casa. Vá à festa. Ao bar. Ver gente, dizem. Não sendo possível, existem entorpecentes ao alcance da mão: a televisão solidária, o correio eletrônico em que smiley faces de óculos escuros pesam o mesmo que um parágrafo inteiro, 140 toques para contar como choveu ou como vai a dor de cabeça. Um novo toque no novo celular com uma nova mensagem de texto. Amizades light nos sites de relacionamento.
E a solidão, aquele monstro, fica ali no canto de olhos meio vidrados, se esquecendo de rosnar, a baba imobilizada no canto da boca.
Mas e se a minha força estiver na solidão e eu estiver, por pura tolice, confundindo heróis e vilões?
Afinal, eu também sou o escuro da noite. Eu também dou o que sobra em casa depois que todo mundo saiu e o que sobra na cidade depois que todo mundo foi dormir. Eu também sou isso, o silêncio que existe de dentro pra fora, como algo que se alastra, que transforma até o ruído externo numa coisa sem sentido. Eu também sou eu apenas, eu só. E mais nada nem ninguém, mesmo na esquina mais movimentada da maior cidade do mundo. Também sou o último passageiro do ônibus e a voz que ninguém ouviu.
É preciso grande humildade para coabitar comigo, para não ter medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, e não camuflá-las com auto-ajuda. Mas só tenho como ser o claro do dia sendo, também, o escuro da noite. Do contrário a minha vida é rasa e os meus sentimentos, pequenas pérolas falsas. Dito de outro modo: só tenho como acompanhar e me fazer acompanhar se descriminalizar em mim a solidão.


-revista gloss n. 29