sábado, 6 de novembro de 2010

Conselhos de avó

" Quando eu for bem velhinha, espero receber a graça de, num dia de domingo, me sentar na poltrona da biblioteca e, bebendo um cálice de Porto, dizer a minha neta:
- Querida, venha cá. Feche a porta com cuidado e sente-se aqui ao meu lado. Tenho umas coisas pra te contar.
E assim, dizer apontando o indicador para o alto: 
 - O nome disso não é conselho, isso se chama colaboração!
Eu vivi, ensinei, aprendi, caí, levantei e cheguei a algumas conclusões.
E agora, do alto dos meus 82 anos, com os ossos frágeis a pele mole e os cabelos brancos, minha alma é o que me resta saudável e forte.
Por isso, vou colocar mais ou menos assim:
É preciso coragem para ser feliz. Seja valente.
Siga sempre seu coração. Para onde ele for, seu sangue, suas veias e seus olhos também irão.
E satisfaça seus desejos. Esse é seu direito e obrigação.
Entenda que o tempo é um paciente professor que irá te fazer crescer, mas escolha entre ser uma grande menina ou uma menina grande, vai depender só de você.
Tenha poucos e bons amigos. Tenha filhos. Tenha um jardim.
Aproveite sua casa, mas vá a Fernando de Noronha, a Barcelona e a Austrália. (eu incluiria Paris e Londres!)
Cuide bem dos seus dentes.
Experimente, mude, corte os cabelos. Ame. Ame pra valer, mesmo que ele seja o carteiro.
Não corra o risco de envelhecer dizendo "ah, se eu tivesse feito..."
Tenha uma vida rica de vida.
Vai que o carteiro ganha na loteria - tudo é possível, e o futuro é imprevisível.
Viva romances de cinema, contos de fada e casos de novela.
Faça sexo, mas não sinta vergonha de preferir fazer amor.
E tome conta sempre da sua reputação, ela é um bem inestimável.
Porque  sim, as pessoas comentam, reparam, e se você der chance elas inventam também detalhes desnecessários.
Se for se casar, faça por amor. Não faça por segurança, carinho ou status.
A sabedoria convencional recomenda que você se case com alguém parecido com você, mas isso pode ser um saco!
Prefira a recomendação da natureza, que com a justificativa de aperfeiçoar os genes na reprodução, sugere que você procure alguém diferente de você. Mas para ter sucesso nessa questão, acredite no olfato e desconfie da visão. É o seu nariz quem diz a verdade quando o assunto é paixão.
Faça do fogão, do pente, da caneta, do papel e do armário, seus instrumentos de criação.
Leia. Pinte, desenhe, escreva. E por favor, dance, dance, dance até o fim, se não por você, o faça por mim.
Compreenda seus pais. Eles te amam para além da sua imaginação, sempre fizeram o melhor que puderam, e sempre farão.
Não cultive as mágoas - porque se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é que um único pontinho preto num oceano branco deixa tudo cinza.
Era só isso minha querida. Agora é a sua vez. Por favor, encha mais uma vez minha taça e me conte: como vai você?"

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Repolhos Recíprocos - Crônica do Zethi

Já escrevemos aqui sobre o repolhinho – aquela figura levemente carente, da qual o pólo mais forte de um relacionamento sem compromisso se aproveita quando quer. É aquele sujeito que recebe uma ligação às 2h “daquela” pessoa e não consegue resistir. Acaba se encontrando onde essa pessoa quer, na hora que ela quer, quando ela quer. Uma repolhice total.

Pois existe um relacionamento, um tanto raro de acontecer, que é a
repolhice recíproca. É aquela pessoa com quem você tem uma relação tão aberta, tão descompromissada e tão gostosa que você não tem nenhum pudor de ligar pra ela às 2h da manhã de terça e perguntar: “Onde você tá? Tô morrendo de vontade de beijar você!”. A pessoa, de forma bastante natural, vira-se para você e diz: “Passa aqui”. Você vai, vocês se pegam (em alguns casos, fazem sexo-louco-estilo-africano), conversam sobre todos os assuntos possíveis (a mulher que você tá afim, o homem que ela tá afim, trabalho, ex-namorados e ex-namoradas, política, economia, o preço do leite e a merda do Parreira que convoca o debilóide Cris).

Para esse relacionamento dar certo, é fundamental não haver envolvimento de nenhuma das partes. Normalmente, a
repolhice recíproca existe entre ex-namorados bem resolvidos; entre pessoas muito amigas que, certo dia, envenenados por altíssimo teor alcoólico, se pegaram e desde então saciam a carência mútua; ou entre pessoas que tinham a relação pólo-mais-forte-e-repolhinho e esse ser mais frágil conseguiu esquecer a pessoa e encarar o lance numa boa. Raríssimas são as vezes em que tal relacionamento evolui para algo mais sério. Mas muitas vezes uma das partes não agüenta o tranco, se apaixona e tudo desanda porque o outro pode estar só curtindo o momento.

Se a
repolhice recíproca atinge níveis profissionais, algumas coisas inerentes a um casal são dispensadas e o relacionamento torna-se algo inacreditável. O cara não precisa ligar pra ela no dia seguinte (e ela não se sente usada), a mulher pode falar do ex-namorado (ou até, quem sabe, do atual namorado que não dá mais no coro), os dois podem fazer ligações na madrugada, bêbados, falar um monte de bobagens, fazer declarações de amor um para o outro que nada vai mudar.

Curiosamente, esse
repolho recíproco vira uma válvula de escape para ambas as partes. Vejamos os exemplos de utilidade pública da repolhice recíproca:

H.o.m.e.n.s

1 - Terminou com a namorada, tá carente, não faz idéia pra onde ir ou o que fazer? Ligue pra repolha recíproca. Você terá o maior carinho do mundo e de repente nem precisa rolar pegação, se você não estiver no clima. Ou, ainda melhor, vai rolar uma pegação sensacional que te deixará fortalecido para enfrentar os próximos dias!

2 - Foi pra night, tomou todas, chegou em diversas mulheres interessantes e levou igual número de tocos. Não satisfeito, apelou às mukissas e não conseguiu marcar gol nenhum (afinal, feio é não fazer gol). Desepero. Pânico. Amigo, essa é a hora de ligar pra ela: a repolha recíproca. “Oi, gatinha! Cadê você? Tô numa merda de festa aqui no Lago Norte e...”. Se a moça não estiver dormindo ou com outro cara, fatalmente ela aceitará um encontro delicioso na calada da noite. O inesperado excita os repolhos recíprocos.

M.u.l.h.e.r.e.s

1 - Você está solteira, só arruma cachorro, pensa em desisitir da vida mundana e se entregar a Deus. A falta de uma belíssima noite de amor tá te fazendo arranhar azuleijos? Nada como um repolho recíproco para fazer aquela ligação: “Oi, lindinho, como você vai? Tá tão sumido...” É a senha. O cara fatalmente estará a postos em menos de 48 horas (uma grande amiga batiza os repolhos recíprocos de PA – pinto amigo).

2 - Você está insegura, arrasada porque acabou de sair de uma negociação com o ex-namorado: ele entrou com o pé e você entrou com a bunda. Sente-se frágil, com aquele vazio de quem perdeu um amor importante. Chega na boate, leva um belo susto do filho da puta do ex. Ele está no meio da pista de dança no maior bate-coxa com uma sirigaita. “E ela é mais feita do que eu! Você viu o cabelo dela, meu Deus! Aquilo é óleo puro!!”. Você olha para o lado e... pimba! Lá está seu repolho recíproco. Você chega perto dele, o puxa pro canto e determina: “Me beija a-go-ra! O fulano tá ali beijando uma sirigaita!!!”. Pra quem mais você poderia fazer esse pedido, sem problema algum, sem estresse, sem parecer uma vadia, sem ser com um sujeito que vai se aproveitar de você? O repolho recíproco! Dez minutos depois, vocês terão saído da boate e você vai chorar suas lágrimas no colo dele. Uma maravilha!

Gostaria de render minhas homenagens à essa categoria de relacionamento. Não machuca ninguém, não ofende ninguém, ajuda a melhorar a auto-estima de si e do próximo, desestressa, facilita a vida das pessoas e, se feito com o cuidado necessário para não se apaixonar, só ajuda!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Cera quente - Fabrício Carpinejar

"Casal feliz não tem amigos. Não tem testemunhas. Eu não caracterizaria de felicidade, é desinformação. Ninguém sabe da intimidade deles para definir o quanto estão ou não contentes.

Meu amor é brigado. Passa a imagem de tormenta, de crise, de luta, mas corresponde a uma convivência normal, de altos e baixos. Anormal é uma relação sem nenhuma anormalidade.

Não guardo pena de mim ou de minha namorada, mas dos amigos que seguram velas. Há sempre mais cera do que fogo.

Vivo pagando mico. Eles têm que suportar a bi-polaridade do amor. Uma coisa é segurar a vela no início do namoro, outra é segurar o próprio bolo com a teimosinha acendendo e apagando a cada sopro ou vento da janela.

Num dia cinzento, ligo para chorar que me separei, suspiro o uísque, fumo os soluços. Sou um suicida perigoso. Exijo cumplicidade, imunidade poética, obcecado em comprovar que não havia jeito de continuar. Falo mal à beça da namorada, destrato e subestimo o passado. Eles concordam.

No sol seguinte, fico condicionado a telefonar na maior desfaçatez e comunicar a reconciliação. É extremamente constrangedor. Contornei o que julgava irreparável, reabri o que anunciava como definitivo. Sou o salvador do suicida. Mudo o tom e a esperança. Falo bem à beça da namorada, elogio e exalto o futuro, reconheço o tanto que ela me apóia, descortino argumentos favoráveis e destaco a resistência da união que supera a mortalidade infantil das ameaças. Eles concordam.

Depois de publicar o retorno no Diário Oficial, eu me penitencio. Já estava na hora de entender: o par que apronta escândalo na despedida permanecerá junto. Perigosa é a separação seca, abrupta, cansada de explicações.

Às vezes, acho que não tenho que ceder, que amigo que é amigo providenciará um desconto e ouvirá a história pela enésima vez com o interesse da novidade. Na maior parte do tempo, acho que cometi bobagem e meus confidentes estão de saco cheio. Eu me afogo no raso. Talvez necessite mudar, vejo que engrandeço a vida a ponto de recusar uma mísera contrariedade e me vingo com o exagero.

A angústia é uma falsa urgência. Todo casal separado deveria não fazer absolutamente nada dentro do prazo de cinco dias. Não decidir movimentação alguma, permitir o corpo esfriar o desaforo, talvez entrar numa clínica ou num spa para desintoxicação vocabular.

O que acontece é cômico. Não transcorreu uma manhã do tumulto, vem uma sanha do remorso, uma conspiração maquiavélica a destruir os antecedentes. O amor se torna um crime impronunciável e mergulhamos numa mobilização desenfreada para limpar a memória, o computador e apagar as pistas. As fotos do orkut são excluídas, as senhas trocadas, as telas de proteção e os porta-retratos desaparecem, os livros afrouxam a costura sem a página da dedicatória, as cartas recebem a visita do picotador de papel. Até o chaveirinho mimoso, comprado no Brique da Redenção, é removido da argola das chaves.

Quando os dois voltam, sacrificou-se metade da memória. É aquela flutuação de fantasma na primeira semana. Uma impressão de que somos facilmente substituíveis e descartáveis.

Não se conservou nem o número no celular e experimenta-se a perversidade de perguntar de novo. O que foi construído durante meses entra numa caixinha para a caridade.

Qualquer morto depende de 24 horas antes de ser enterrado. O mesmo é indicado aos relacionamentos. Confie na ressurreição, não apresse a cova, poderá ser apenas mais um buraco no jardim."

Não podia dizer mais verdades em uma única crônica, amei! :P

quarta-feira, 3 de março de 2010

me apaixonei


Simplesmente lindo :P heuheuheuh
Histologia Básica - Junqueira e Carneiro

sábado, 27 de fevereiro de 2010

"Eu gosto do impossível, tenho medo do provável, dou risada do ridículo e choro porque tenho vontade, mas nem sempre tenho motivo. Tenho um sorriso confiante que às vezes não demonstra o tanto de insegurança por trás dele. Sou inconstante e talvez imprevisível. Não gosto de rotina. Eu amo de verdade aqueles pra quem eu digo isso, e me irrito de forma inexplicável quando não botam fé nas minhas palavras. Nem sempre coloco em prática aquilo que eu julgo certo. São poucas as pessoas pra quem eu me explico ."
-Bob Marley-

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A solidão - Adriana Lisboa

"Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite." Clarice Lispector escreveu isso. Lendo essas palavras, o mais impressionante, porém, não é a idéia de que minha força possa estar na solidão, e sim que eu tenha me acostumado a procurar minha força em toda parte, exceto na solidão.
Saia de casa. Vá à festa. Ao bar. Ver gente, dizem. Não sendo possível, existem entorpecentes ao alcance da mão: a televisão solidária, o correio eletrônico em que smiley faces de óculos escuros pesam o mesmo que um parágrafo inteiro, 140 toques para contar como choveu ou como vai a dor de cabeça. Um novo toque no novo celular com uma nova mensagem de texto. Amizades light nos sites de relacionamento.
E a solidão, aquele monstro, fica ali no canto de olhos meio vidrados, se esquecendo de rosnar, a baba imobilizada no canto da boca.
Mas e se a minha força estiver na solidão e eu estiver, por pura tolice, confundindo heróis e vilões?
Afinal, eu também sou o escuro da noite. Eu também dou o que sobra em casa depois que todo mundo saiu e o que sobra na cidade depois que todo mundo foi dormir. Eu também sou isso, o silêncio que existe de dentro pra fora, como algo que se alastra, que transforma até o ruído externo numa coisa sem sentido. Eu também sou eu apenas, eu só. E mais nada nem ninguém, mesmo na esquina mais movimentada da maior cidade do mundo. Também sou o último passageiro do ônibus e a voz que ninguém ouviu.
É preciso grande humildade para coabitar comigo, para não ter medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, e não camuflá-las com auto-ajuda. Mas só tenho como ser o claro do dia sendo, também, o escuro da noite. Do contrário a minha vida é rasa e os meus sentimentos, pequenas pérolas falsas. Dito de outro modo: só tenho como acompanhar e me fazer acompanhar se descriminalizar em mim a solidão.


-revista gloss n. 29